segunda-feira, 11 de abril de 2016

A visita de Disney a América Latina. O pai de Mickey vistou a América Latina em busca de ideias durante a Segunda Guerra Mundial. (El País)



Em 1941, o mundo inteiro estava em colapso. A Segunda Guerra Mundial tinha confrontado os Aliados e o Eixo em uma das maiores contendas bélicas da história. Nos Estados Unidos, Walt Disney desfrutava do sucesso comercial e de crítica de seu primeiro longa-metragem de animação: Branca de Neve. No entanto, o conflito militar global prejudicou seus planos de construir um estúdio e a continuidade de seus projetos seguintes, Pinocchio e Fantasia. Com uma dívida de 4,5 milhões de dólares, sem investimentos do Velho Continente e com o início de uma greve de funcionários, um convite diplomático foi a salvação do diretor e roteirista. O então presidente Franklin Delano Roosevelt buscava aliados na América do Sul e Disney queria trabalhar e obter ideias para futuras produções. Estes foram os bastidores que levaram ao também produtor e 18 artistas de sua equipe ao sul da fronteira, em busca de inspiração e para deter o avanço da Alemanha nazista.

A 50 anos da morte de Disney, data a ser comemorada em dezembro deste ano, a viagem teve importância para a continuidade de sua carreira. Da visita diplomática foram feitos dois filmes: Alô, amigos e Você já foi à Bahia?. “Ele queria fazer filmes e não tinha dinheiro para isso. A viagem à América do Sul o salvou de alguma maneira, a ele e a sua sanidade”, explica o historiador e animador John Canemaker, que relembra a viagem do diretor no documentário Walt & El grupo (2008), um longa-metragem de Ted Thomas.


Alô, Amigos teve o pato Donald, o Pateta, o avião mensageiro chileno Pedrito e o papagaio brasileiro Zé Carioca como principais protagonistas. A equipe de Disney ficou fascinada com os cartões postais do Rio de Janeiro, as pedras portuguesas da orla de Copacabana e, é claro, o samba. Donald não só conseguiu aprender a dançar samba, como experimentou cachaça. A canção Aquarela do Brasil, do lendário compositor mineiro Ary Barroso, foi a trilha sonora do encontro de culturas no episódio documental de nome homônimo.


A partitura de 'Aquarela do Brasil', composta por Ary Barroso. (Cortesía de ThornBooks)
“Só Aquarela do Brasil oferece essa sensação de maravilhamento e de descoberta que eles encontraram na América do Sul em termos de cor e de formas livres, do clima, da música, dos cheiros, dos sons, dos gostos, toda a sensualidade e a beleza da região se refletem neste curta em particular”, afirma Canamaker.

Graças a esse curta-metragem, Donald também visitou a Bolívia e se viu diante do Lago Titicaca, com seus mais de 200 quilômetros de comprimento e 100 de largura, além de sentir os efeitos do sorojchi, ou mal de altitude, causado pelos 3.600 metros sobre o nível do mar do território no qual está este corpo d’água. Nesta breve visita, também conheceu a singularidade das lhamas, um mamífero camelídeo que abunda no altiplano latino-americano.

“A primeira impressão de seus mercados foi o vivo colorido. A música da Bolívia é tão especial quanto suas roupas. Os desenhos originais feitos à mão fascinaram as mulheres de nossa equipe, assim como os gorros de lã de vicunha”, explica o narrador do curta documental Como se hizo Saludos Amigos. “Atraídos pelo valor cinematográfico das lhamas, sua atitude altiva e elegante parecia combinar com a música local e assim nasceu outro personagem”, afirma o mesmo narrador.


Enquanto uma parte dos animadores da equipe percorria o Peru e a Bolívia, o criador do Mickey visitava o Uruguai para a estreia de Fantasia. O jornalista do El País no Uruguai, Hugo Rocha, que faleceu em 2014, relembrou esse momento. No documentário de Thomas, Rocha afirma que Disney, ao chegar, se viu rodeado de jornalistas e manteve a distância. Rocha teve a sensação de que ele queria evitar a imprensa local, “mas não foi o caso, nossa impressão mudou radicalmente três horas depois, quando ele convocou uma entrevista coletiva para os meios de comunicação”, afirma.

“Walt era muito amigável, modesto, um homem de fácil trato. Tinha 40 anos e parecia uma criança, eu ficava observando-o e me dizia que ele me lembrava James Stewart ou Gary Cooper, mas não, não, outra pessoa. Mas, claro, ele me lembra o Mickey Mouse. É o Mickey Mouse”, pensava Rocha, quando se lembrava dessa coletiva em Montevidéu.

Dias depois, o diretor norte-americano foi para Buenos Aires, uma cidade muito parecida com Boston. Na Argentina, como em muitos outros lugares, conta-se a lenda urbana de que Disney foi congelado, segundo as afirmações de muitos entrevistados nesse país mostrados no documentário Walt & El Grupo. O prolífico animador ficou novamente fascinado pelas apresentações de danças típicas como El gato, El Malambo, La Chacarera e La Zamba rio-platense. A cultura gauchesca, o asado no Pampa e o modo de viver do gaúcho, a quem chamaram de cowboy da América Latina — inspirados na arte do desenhista e pintor Florencio Molina Campos —, resultou em uma brincadeira, encarnada por Pateta, da vida desse vaqueiro das planícies latino-americanas.

Donald apaixonado



Disney com vestimenta gaucha na Argentina. The Walt Disney Family Museum
O narrador de Como se hizo Saludos amigos afirma que Disney e sua equipe acabaram visitando brevemente todos os países da América do Sul, em alguns casos, só de passagem, à exceção do Paraguai, que não é mencionado em nenhum dos três curtas-metragens. Os artistas também passaram pela América Central, apesar de considerarem que “o tempo era curto demais” para fazer justiça a países como Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras e, uma menção especial, a um lugar “inesquecível” como Chichicastenango, na Guatemala.

O México foi a última parada dos realizadores para captar mais música, mais cores e mais impressões. Os jardins flutuantes de Xochimilco encheram os olhos dos artistas norte-americanos. Passearam entre embarcações que vendem flores, feijões e tacos. Descreveram o canal que transporta as barcaças como um “belo lugar, com muita cor e inspiração suficiente para fazer um filme”. Uma das últimas coisas que viram foi a apresentação dos charros, os cavaleiros mexicanos. Este último trecho da viagem resultou na criação de Pancho Pistolas, um bravo galo cavaleiro que adora cantar rancheras.


Este personagem viu sua estreia em Você já foi à Bahia? (Los tres caballeros, em espanhol), o primeiro filme de Disney que combina filmagem ao vivo e animação, junto a Donald e Zé Carioca, os quais leva para passear em Pátzcuaro, Veracruz e Acapulco. No segmento, cantam juntos uma versão da popular toada ¡Ay Jalisco, no te rajes!, além de o pato se apaixonar pela cantora e atriz mexicana Dora Luz, que lhe dedica a canção Solamente una vez, de Agustín Lara, vertida para o inglês para este filme. Da mesma forma, quase terminando o filme, Donald contracena com outras composições típicas do país norte-americano como La zandunga, ao lado da atriz e bailarina da Época de Ouro do celuloide mexicano Carmen Molina, que também rouba o coração do personagem de Disney. Seu idílio acaba quando dançam juntos a polca revolucionária Jesusita en Chihuahua.

Mais pertinente do que nunca

O mundo voltou a mudar com o bombardeio a Pearl Harbor, e portanto a missão na qual Disney e seus artistas estavam envolvidos foi “mais pertinente do que nunca”, mencionam em Walt & El grupo. “Quando o escritório de assuntos interamericanos nos pediu que fizéssemos Alô, amigos, tínhamos um propósito, fazer um filme que os Estados Unidos e a América Latina gostassem, para que no fim estivesses mais próximos uns dos outros. Todos pensamos nas barreiras entre os subcontinentes da América e, agora, de repente, vemos que isso não importa. Nossos ancestrais são diferentes, mas nosso futuro deve ser o mesmo”, afirmava Disney em uma gravação que aparece na produção de Thomas.
No entanto, nem todas as partes ficaram felizes. A historiadora Leticia Pinheiro se diz satisfeita com o resultado do empreendimento diplomático. “Zé Carioca era um malandro, mas do bem. Ele não era perigoso, era um pouquinho irresponsável, mas muito amigável, muito cordial, um cara legal. Toda a ideia de se aproximar da América Latina foi dos Estados Unidos. Creio que houve uma boa convergência de interesses dos dois projetos”, detalha Pinheiro no documentário.

Canamaker menciona que, para Disney e sua equipe, foi difícil levar ao cinema todo o material colhido. “As pessoas que não viajaram à América do Sul montaram esses filmes como se fazia antigamente, com piadas e toques da cultura estrangeira, mas sem incorporar ou criar algo totalmente novo. A influência norte-americana sobrepuja as influências culturais da América Latina”, acrescenta o historiador norte-americano.




O estudante de história chileno Juan Carlos González não aprova a passagem de Disney pelo Chile e a criação do avião mensageiro Pedrito, como declara no documentário. Esse desencanto, no entanto, resultou na criação do Condorito, um personagem de quadrinhos chileno com muita popularidade em alguns países da América Latina, feito por René Ríos Bottiger, Pepo. “Como uma forma de exaltar um personagem nacional, criou-se o Condorito, que representa o que há de mais típico em nosso país e também é uma clara resposta à pouca consideração de Disney ao nosso país no filme [Alô, amigos]”, acrescenta.

Para o historiador Canemaker a viagem à América Latina foi benéfica tanto para Roosevelt como para o diretor de cinema, já que o ex-presidente dos Estados Unidos conseguiu o que queria: a atenção da América do Sul. E Disney conseguiu “escapar dos problemas em casa” e encontrar uma saída criativa. A partir desse momento, a história continua como é conhecida e se torna mais um“causo”. No final, o documentário menciona que Walt Disney conseguiu manter-se no negócio e continuou sendo um inovador em cinema, televisão, parques temáticos e ideias sobre o futuro, e insiste que o pai do Mickey “nunca foi congelado”.


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